Protocolo Clínico • Farmacologia • Setembro 2026

Agonistas de GLP-1 e cirurgia: quando a suspensão da medicação não responde à pergunta

O uso de agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RA) e de agonistas combinados GLP-1/GIP tornou-se cada vez mais frequente na prática médica, especialmente no tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e da obesidade. Ao mesmo tempo em que essas medicações ganharam espaço, surgiu uma preocupação específica para a anestesiologia: o possível atraso do esvaziamento gástrico e sua relação com a presença de conteúdo residual no estômago durante a anestesia.

Durante algum tempo, a resposta pareceu simples: suspender a medicação antes do procedimento. Mas a discussão evoluiu, e diferentes sociedades e grupos multidisciplinares passaram a favorecer estratégias mais individualizadas, incluindo avaliação de sintomas, fase de tratamento, características do procedimento, modificação do jejum e, quando disponível e apropriado, ultrassonografia gástrica à beira-leito. [1–4]

Por que os agonistas de GLP-1 interessam ao anestesiologista?

O atraso do esvaziamento gástrico é um dos efeitos fisiológicos relacionados aos agonistas de GLP-1. Na prática, isso pode se manifestar por saciedade precoce, plenitude pós-prandial, náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais. O problema perioperatório surge quando esses efeitos resultam em conteúdo gástrico residual apesar do jejum convencional. [1,2]

Estudos utilizando ultrassonografia gástrica encontraram maior frequência de conteúdo gástrico residual em pacientes utilizando agonistas de GLP-1. Um estudo multicêntrico publicado em 2026 avaliou 316 pacientes em uso dessas medicações submetidos a ultrassonografia gástrica antes da anestesia. Entre eles, 113 (35,8%) apresentaram conteúdo gástrico residual elevado, definido pela presença de alimento sólido ou volume de líquido claro superior a 1,5 mL/kg. [5]

Esse tipo de achado demonstra que o problema fisiológico é real, mas existe uma distinção importante: a presença de conteúdo gástrico residual não significa necessariamente que ocorrerá aspiração pulmonar.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, incluindo 20 estudos comparativos, encontrou associação entre o uso de GLP-1 e maior presença de conteúdo gástrico residual. Entretanto, os desfechos pulmonares clinicamente relevantes relacionados à aspiração foram incomuns e não apresentaram aumento consistente entre os usuários de GLP-1. Os autores destacam que a evidência disponível permanece heterogênea e com limitações metodológicas. [6]

Portanto, existem duas perguntas diferentes:
Existe conteúdo gástrico residual?
Esse conteúdo resultará em aspiração clinicamente relevante?
Essa distinção é fundamental.

Elementos relevantes antes da cirurgia

A avaliação pré-anestésica de um paciente em uso de GLP-1 não deveria se resumir à data da última aplicação. Alguns elementos são particularmente relevantes:

A fase de aumento progressivo da dose merece atenção particular, uma vez que sintomas gastrointestinais são mais frequentes após o início do tratamento ou durante períodos de escalonamento de dose. [2]

O objetivo é identificar se existe um risco adicional que precisa modificar a estratégia anestésica.

O jejum basta?

O jejum adequado continua sendo fundamental, mas não significa necessariamente estômago vazio.

As recomendações atuais passaram a incorporar estratégias adicionais, incluindo modificação da dieta nas 24 horas anteriores e avaliação individualizada do conteúdo gástrico. [1–4]

Uma recomendação publicada em 2025 por sociedades da Austrália e Nova Zelândia, por exemplo, propôs a manutenção dos agonistas de GLP-1/GIP no período perioperatório associada a uma dieta com líquidos claros por 24 horas e jejum convencional posteriormente. Quando essa estratégia não é possível, recomenda avaliação do conteúdo gástrico por ultrassonografia ou outras estratégias disponíveis. [1]

O mesmo documento afirma que não é possível recomendar, atualmente, um período específico de suspensão da medicação que garanta que o esvaziamento gástrico tenha retornado aos níveis basais. [1]

Isso representa uma mudança importante de paradigma: em vez de depender exclusivamente da suspensão da droga, podemos modificar a avaliação do paciente e o próprio preparo perioperatório.

O papel do POCUS gástrico

É nesse contexto que a ultrassonografia gástrica ganha importância.

O exame pode fornecer uma avaliação objetiva e dinâmica do conteúdo gástrico, permitindo identificar diferentes cenários e, em situações apropriadas, estimar o volume de conteúdo líquido.

A ultrassonografia não responde a todas as perguntas e não elimina a necessidade de julgamento clínico, mas pode acrescentar uma informação que nenhuma pergunta sobre jejum ou data da última aplicação consegue fornecer diretamente: o que existe no estômago naquele momento.

Recomendações recentes da anestesiologia reconhecem o POCUS gástrico como uma ferramenta potencialmente útil para a estratificação individualizada do risco de aspiração, especialmente quando existe suspeita de esvaziamento gástrico retardado. [1,3,4]

O POCUS não é uma ferramenta mágica. Existe uma curva de aprendizado, depende do treinamento e da experiência do profissional, pode apresentar limitações técnicas e nem sempre produzir uma resposta conclusiva.

A própria recomendação da Korean Society of Anesthesiologists publicada em 2026 ressalta que a evidência disponível ainda é insuficiente para sustentar recomendações clínicas baseadas em evidência de alta qualidade e que a ultrassonografia deve apoiar, e não substituir, o julgamento clínico. [4]

E se o serviço não tiver ultrassom gástrico?

Essa é uma questão particularmente importante no ambiente ambulatorial.

Uma recomendação que pressupõe a existência de POCUS precisa considerar que nem todo serviço dispõe de equipamento, treinamento ou profissional habilitado para realizá-lo.

A ausência da ferramenta não significa automaticamente que o procedimento deva ser cancelado.

Nesse cenário, outras variáveis ganham importância, como sintomas, fase de tratamento, tempo desde a última dose, dose e frequência da medicação, presença de comorbidades, tipo, duração e posição do procedimento, possibilidade de proteção da via aérea, disponibilidade de recursos para manejo de uma eventual aspiração, capacidade de modificar a técnica anestésica e possibilidade de postergar o procedimento.

O risco não é determinado por uma única variável.

Anestesia geral não é igual a sedação

Outro ponto frequentemente simplificado é considerar que procedimentos sob sedação seriam mais seguros porque não envolvem intubação.

Isso pode ser enganoso.

Sedação profunda pode comprometer os reflexos protetores da via aérea e, dependendo do procedimento, pode existir acesso limitado à cabeça e à via aérea. Da mesma forma, anestesia regional não significa risco zero. A técnica anestésica deve ser analisada dentro do contexto completo.

Um procedimento curto, superficial, com paciente colaborativo e via aérea facilmente acessível é diferente de uma cirurgia prolongada, com necessidade de imobilidade absoluta, posição que dificulta o acesso à via aérea ou possibilidade de conversão para anestesia geral.

O risco de aspiração não pertence apenas à droga. Ele pertence à interação entre paciente, medicamento, jejum, procedimento e estratégia anestésica.

Quando considerar mudança da estratégia?

Diante de um paciente com maior suspeita de conteúdo gástrico relevante, algumas possibilidades podem ser consideradas:

A decisão deve considerar o risco da aspiração em contraposição aos riscos de postergar a cirurgia, alterar a estratégia anestésica ou modificar o tratamento da doença de base.

O paciente ambulatorial merece uma avaliação diferente?

O ambiente ambulatorial torna essa discussão ainda mais interessante.

A cirurgia pode ser pequena, o paciente pode ser jovem, os exames podem ser normais. E ainda assim pode existir uma variável perioperatória relevante que não aparece em um hemograma ou eletrocardiograma.

Para um serviço que atende pacientes em uso frequente de GLP-1, a pergunta deve ser: “Temos estrutura para avaliar esse paciente adequadamente?”

Isso inclui conhecimento da medicação, avaliação pré-anestésica estruturada, reconhecimento de fatores associados ao atraso do esvaziamento gástrico, disponibilidade de recursos diagnósticos quando indicados, capacidade de modificar a técnica anestésica e estrutura para lidar com uma eventual complicação.

A diretriz ajuda. Mas não decide sozinha.

Talvez essa seja a principal mensagem dessa discussão.

Diretrizes são importantes porque organizam a evidência disponível e oferecem uma estrutura para tomada de decisão. Mas a evidência ainda está evoluindo.

Ainda não temos um intervalo universal de suspensão que garanta que o estômago esteja vazio.

Ainda não temos evidência suficiente para afirmar que todo usuário de GLP-1 apresenta risco elevado de aspiração.

E também não podemos assumir que um jejum adequado ou determinado número de dias desde a última dose elimine completamente o risco.

O que temos é uma combinação de evidências fisiológicas, estudos de conteúdo gástrico, relatos clínicos e recomendações que vêm sendo atualizadas rapidamente.

Por isso, mais do que saber quando suspender, o anestesiologista precisa entender como avaliar os riscos e desenhar estratégias para mitigá-los.

Referências

  1. Hocking SL, Scott DA, Remedios ML, et al. 2025 ADS/ANZCA/GESA/NACOS clinical practice recommendations on the peri-procedural use of GLP-1/GIP receptor agonists. Anaesth Intensive Care. 2025;53(5):300-306. doi:10.1177/0310057X251355288.
  2. Oprea AD, Ostapenko LJ, Sweitzer BJ, et al. Perioperative management of patients taking glucagon-like peptide 1 receptor agonists: Society for Perioperative Assessment and Quality Improvement (SPAQI) multidisciplinary consensus statement. Br J Anaesth. 2025;135(1):48-78. doi:10.1016/j.bja.2025.04.001.
  3. ASA, AGA, ASMBS, et al. Multisociety clinical practice guidance for the safe use of glucagon-like peptide-1 receptor agonists in the perioperative period. 2024.
  4. Bang YJ, Choi JH, Min JJ, et al. Korean consensus-based recommendations for preanesthetic gastric ultrasound and anesthetic considerations for GLP-1 receptor agonist-based therapy: a consensus statement from Clinical Practice Guideline Committee of the Korean Society of Anesthesiologists. Korean J Anesthesiol. 2026. doi:10.4097/kja.26655. PMID:42529794.
  5. Pai SL, Nimma SR, Beam WB, et al; MAGIC Collaborative. Assessment of Gastric Content Using Gastric Ultrasound in Patients on Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists Before Anesthesia. Anesth Analg. 2026;142(4):640-649. doi:10.1213/ANE.0000000000007764. PMID:41032460.
  6. Adalier E, Neto C, Shopi I, et al. Perioperative anesthesia and aspiration-related outcomes in patients receiving GLP-1 receptor agonists undergoing urgent and elective procedures: a systematic review. Trends Anaesth Crit Care. 2026;68:101660. doi:10.1016/j.tacc.2026.101660.