Protocolo Clínico • Segurança Perioperatória • Outubro 2026

Hipotermia perioperatória inadvertida: por que o controle da temperatura é parte da cirurgia segura

Imagine um caso hipotético. Avaliação pré-anestésica realizada. Materiais conferidos. Equipe completa. Cirurgia sem intercorrências. Ainda assim, o paciente apresenta recuperação anestésica mais lenta do que o esperado. Uma variável frequentemente negligenciada precisa ser revisada: a temperatura corporal.

Na assistência perioperatória, a segurança não depende apenas da execução adequada do procedimento ou da ausência de intercorrências aparentes. Ela também depende da identificação e do controle de variáveis fisiológicas capazes de influenciar a evolução do paciente. A temperatura é uma delas.

A hipotermia perioperatória inadvertida é definida como temperatura central inferior a 36 °C. Trata-se de uma complicação relativamente frequente, potencialmente evitável e que pode ocorrer mesmo em procedimentos eletivos, com pacientes previamente avaliados e equipes experientes.

Mais do que uma questão de conforto, a manutenção da normotermia integra as medidas de segurança do paciente cirúrgico.

Por que a temperatura corporal cai durante a anestesia?

Em condições fisiológicas, o organismo mantém a temperatura corporal por meio de mecanismos de termorregulação que equilibram a produção e a perda de calor.

Durante a anestesia geral e regional, esses mecanismos são comprometidos. A anestesia reduz as respostas comportamentais e fisiológicas ao frio e pode provocar vasodilatação periférica, favorecendo a redistribuição do calor do compartimento central para os tecidos periféricos.

Esse fenômeno é particularmente relevante nos primeiros 30 a 40 minutos após a indução anestésica, período em que a temperatura central pode apresentar queda significativa.

Outros fatores contribuem para a perda térmica:

A associação desses fatores explica por que a hipotermia pode se desenvolver mesmo quando a temperatura ambiente parece confortável para a equipe cirúrgica.

O paciente anestesiado não consegue comunicar adequadamente o desconforto térmico nem ajustar seu comportamento para compensar a perda de calor. Por isso, a percepção subjetiva da equipe não substitui a monitorização objetiva.

Quais são as repercussões clínicas da hipotermia?

A redução da temperatura corporal pode afetar diferentes sistemas fisiológicos e interferir na recuperação pós-anestésica.

1. Farmacocinética e farmacodinâmica dos anestésicos

A hipotermia pode alterar a distribuição, o metabolismo e a eliminação de determinados fármacos, além de modificar a resposta do organismo aos seus efeitos.

A redução da temperatura pode diminuir a atividade enzimática e contribuir para o prolongamento da ação de alguns agentes anestésicos, sedativos e bloqueadores neuromusculares.

A intensidade desse efeito depende do fármaco utilizado, do grau de hipotermia, da duração da exposição e das condições clínicas do paciente.

Consequentemente, a temperatura corporal deve ser considerada na avaliação de uma recuperação mais lenta do que a esperada. Entretanto, o atraso no despertar não deve ser atribuído automaticamente à hipotermia: bloqueio neuromuscular residual, efeitos farmacológicos, alterações metabólicas e outras causas também precisam ser investigados.

2. Coagulação e sangramento

A hipotermia pode prejudicar a função plaquetária e a atividade de determinadas enzimas envolvidas na coagulação.

Essas alterações podem contribuir para maior sangramento perioperatório, especialmente quando associadas a outros fatores de risco, como perdas sanguíneas relevantes e alterações preexistentes da hemostasia.

Na prática, a manutenção da normotermia constitui uma medida complementar de proteção hemostática, embora não substitua a identificação e o tratamento de outras causas de sangramento.

3. Infecção e cicatrização

A hipotermia tem sido associada ao aumento do risco de infecção do sítio cirúrgico. Entre os mecanismos propostos estão alterações da resposta imune e da perfusão tecidual.

A relação entre temperatura, perfusão e cicatrização é particularmente relevante em procedimentos que exigem recuperação tecidual adequada.

4. Tremores, desconforto e demanda metabólica

No período pós-operatório, a hipotermia pode provocar tremores, desconforto e aumento do consumo de oxigênio.

Essas respostas podem elevar a demanda metabólica e cardiovascular, tornando o controle térmico especialmente importante em pacientes com risco cardiovascular aumentado.

A revisão Perioperative Hypothermia - A Narrative Review (International Journal of Environmental Research and Public Health, 2021) descreve essas repercussões e reforça a necessidade de estratégias de prevenção e tratamento ao longo de todo o período perioperatório.

Quais pacientes e procedimentos merecem maior atenção?

O risco de hipotermia não é determinado por uma única característica. Ele resulta da interação entre o estado clínico do paciente, a técnica anestésica, o ambiente e a extensão do procedimento.

Entre os fatores que justificam atenção especial estão:

Em cirurgia plástica, procedimentos extensos, cirurgias combinadas e operações prolongadas merecem planejamento térmico individualizado. A exposição de grandes áreas corporais, o tempo anestésico e a necessidade de irrigação ou reposição volêmica podem aumentar a dificuldade de manter a normotermia.

A classificação ASA, isoladamente, não determina o risco térmico. A avaliação deve considerar o conjunto de fatores clínicos e operatórios.

Aquecimento passivo e ativo: qual é a diferença?

A prevenção da hipotermia exige uma estratégia que combine redução das perdas de calor, monitorização e, quando indicado, transferência ativa de calor para o paciente.

Aquecimento passivo

O aquecimento passivo busca reduzir a perda térmica por meio de medidas como:

Essas medidas são importantes e devem fazer parte da rotina assistencial. Entretanto, apresentam capacidade limitada para elevar a temperatura central quando comparadas aos dispositivos de aquecimento ativo.

Aquecimento ativo

O aquecimento ativo transfere calor ao paciente por meio de dispositivos específicos. Entre os métodos utilizados estão:

A escolha depende das características do paciente, do procedimento e dos recursos disponíveis.

O que recomenda a diretriz NICE CG65?

A diretriz Hypothermia: prevention and management in adults having surgery, publicada pelo National Institute for Health and Care Excellence (NICE) em 2008 e atualizada em dezembro de 2016, apresenta recomendações para prevenção, monitorização e tratamento da hipotermia inadvertida em adultos submetidos a procedimentos cirúrgicos.

Entre os principais pontos estão:

Pré-operatório

Intraoperatório

A NICE recomenda ajustar o sistema de aquecimento por ar forçado para manter a temperatura do paciente em pelo menos 36,5 °C.

Pós-operatório

Esses intervalos correspondem às recomendações da NICE CG65. A diretriz é uma referência internacional e não deve ser interpretada, isoladamente, como norma regulatória brasileira universal. Protocolos institucionais devem considerar as normas aplicáveis e as características da população atendida.

Conforto térmico: uma dimensão frequentemente negligenciada

O conforto térmico não deve ser tratado como um detalhe de hotelaria ou uma questão secundária diante das prioridades técnicas da sala cirúrgica. O paciente pode experimentar frio na preparação pré-operatória, durante a espera, no intraoperatório e na recuperação. Em condições de anestesia, a impossibilidade de comunicar o desconforto torna ainda mais importante a atuação preventiva da equipe.

Oferecer cobertores, reduzir a exposição desnecessária, manter condições ambientais adequadas e utilizar aquecimento ativo quando indicado são medidas complementares. Entretanto, conforto subjetivo e normotermia não são conceitos equivalentes. Um paciente pode não referir frio e apresentar temperatura central reduzida. Da mesma forma, o relato de frio deve ser valorizado, mas não substitui a aferição objetiva.

O controle térmico adequado exige, portanto, atenção tanto à experiência do paciente quanto aos parâmetros fisiológicos.

Da recomendação clínica ao processo assistencial

A disponibilidade de um termômetro ou de um dispositivo de aquecimento não garante, por si só, a segurança térmica do paciente. É necessário que exista um processo capaz de transformar recomendações em práticas consistentes:

Essa abordagem reduz a dependência de iniciativas individuais e favorece a consistência do cuidado entre profissionais, turnos e etapas da jornada cirúrgica.

O controle térmico é um exemplo de como a segurança perioperatória depende da integração entre conhecimento fisiológico, recursos adequados e governança assistencial.

Conclusão

A hipotermia perioperatória inadvertida é uma complicação potencialmente prevenível, com repercussões que vão além do desconforto do paciente.

Seus efeitos podem envolver a recuperação anestésica, a coagulação, a resposta imunológica e a demanda metabólica. A magnitude dessas repercussões varia conforme a temperatura atingida, o tempo de exposição e as características clínicas do paciente.

A prevenção começa antes da indução, continua durante todo o procedimento e precisa ser mantida na recuperação pós-anestésica. Monitorização adequada, aquecimento individualizado e protocolos bem definidos são componentes complementares de uma assistência segura.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Hypothermia: prevention and management in adults having surgery. Clinical Guideline CG65. London: NICE; 2008. Updated December 14, 2016.
  2. Rauch S, Miller C, Bräuer A, Wallner B, Bock M, Paal P. Perioperative hypothermia—A narrative review. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2021.
  3. Madrid E, Urrútia G, Roqué i Figuls M, Pardo-Hernandez H, Campos JM, Paniagua L, Maestre L, Alonso-Coello P. Active body surface warming systems for preventing complications caused by inadvertent perioperative hypothermia in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016.
  4. Sessler DI. Temperature regulation and monitoring. In: Miller RD, Cohen NH, Eriksson LI, Fleisher LA, Wiener-Kronish JP, Young WL, editors. Miller’s Anesthesia. 8th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2015. p. 1622–1646.